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A Última Na Terra

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Apareceu num mundo vazio, no meio duma cidade sem viva alma, prédios de vidros quebrados e paredes rachadas pelas raízes das árvores que nelas cresciam. O sol era ofuscado por uma nuvem de poeira que abatia o local e somente as ratazanas eram a única população com patas, daquela artificialidade. As bocas de incêndio, completamente destruídas, jorravam jatos de água que desconheciam a palava “cessante” e os carros, encavalitados uns nos outros, pneus furados e gagamente amachucados, tiveram uma vez os seus dias contados. No meio daquela selva de betão, não se via uma única pessoa, um excecional ser capaz de falar ou, sequer, gritar. Sim! Gritar por ajuda! Alguém que brade “Estou aqui, venham-me ajudar!”, mas não. Aquele lugar era um pleno deserto humano, ou melhor, ainda mais apropriado, um cemitério não de Homens, mas dos seus restos. Sentia-se dominada por um vazio impotente, que lhe impedia de perfumar aquele fétido, de varrer aquela sujidade e empeçar tudo de novo, do início, da partida. Poderia recuar no tempo, mas, até isso, seria uma perda desse mesmo, tempo.

A Mulher do Apocalipse

Quiçá morrer fosse a derradeira questão, a última oportunidade para se reconciliar, para se açambarcar do orgulho de ter, ao menos, respirado, de ter tocado no paraíso, destruindo-o. Recuou. Passeou para trás. Hesitou. Voltou atrás, ao ponto anterior. Não poderia morrer. Mas tinha que o fazer. Afligia-a deixar de respirar. Mas era a ridícula solução. Entrou numa espiral de paranoia, num movimento circular estonteante, girou sobre si própria e caiu de rodilhas no cinzento asfaltado, profundamente enfrestado. Uma perna num lado, a outra doutro. Não suportava a cabeça, parecia moída, como pão ralado, sentia as migalhas agitarem-se dum lado para o outro. Era ela agora, aquela que desejava vociferar “Socorram-me!”. Seria bom, no limite inatingível do exequível, que uma mãozinha a salvasse. Ou, mais sensatamente, uma mãozorra. Punho forte. Braço musculado. Ditosamente, já não existia ninguém assim, que possuísse tão extravagante sapiência. Assim, só lhe restava morrer, murchar, deixar a sua coluna dobrar-se lentamente até que os seus longos cabelos se espetassem no chão e depois, o resto do corpo. A salvação era somente a morte. O fim.

Miguel Viegas Leal

About viegasleal

Nada de mais! Escrevo e pronto...

One response »

  1. Última palavra da quinta linha será palavra?;
    logo por baixo – gagamente?;
    “caiu de rodilhas”? deixa lá as rodilhas para os espanhóis, em português diz-se joelhos.

    Gosto da riqueza da linguagem e do domínio da palavra escrita para expressar as ideias.
    O tempo, a paciência e a persistência são os ingredientes para o sucesso. Cultiva a arte que tens como uma planta; deixa amadurecer os frutos até ficarem doces; põe a fermentar, e de lá sairá a bebida deliciosa que será o sucesso.

    Só espero que não seja o meu Land Rover aos pés da Mulher do Apocalipse.

    Responder

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