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Minha entrevista à revista Livros & Leituras

Há uns meses dei uma entrevista à revista Livros & Leituras, publicada agora:

 

http://www.livroseleituras.com/web/index.php?option=com_content&view=article&id=1350:miguel-leal-ha-um-espirito-criador-dentro-de-mim-que-me-da-ganas-de-criar-coisas&catid=102:ultimas-propostas&Itemid=165

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Fardo

Às vezes é como um sonho
Que se desenrola no corpo duma pessoa
Calhando, nem seja isso nem nada parecido
Senão um peso medonho que nos entoa.

Mas dizer não é certo
Que tal fardo não é cousa boa
P’ra mim é mui más acertado
Que é fingimento nosso nessa coroa

Quiçá, deva dizer que é medonho
Que a minha mente muito voa
Para lugares que não quero, é acerbado
Pára! ‘Tou farto que ela me roa.

Miguel Viegas Leal©

Lançamento de “Passagens d’O Continente”

Perpetuações trovadorescas

Há noites que nos morrem na memória
Outras porém, nela perpetuam
Todas elas contagiadas de irrisória
Cousas passadas que aqui flutuam.

Esta é outra que se quedará p’ra sempre
Daquelas duma intensa contrarrevolta.
Se a poesia é declamada não a compre
Oiça-a somente, porque ela anda à solta.

Miguel Viegas Leal

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Psst!

O silêncio esconde-se por detrás do nevoeiro
Fugitivo, ausenta-se para lá do gargalo do barulho
E não é dele o zumbido que oiço aqui neste espigueiro
Senão destas madeiras invadidas pelo gorgulho.

Airosa, a língua mais não falada
A mais bonita delas todas também,
Aquela que não é ouvida, somente percebida
Nesta escrita ela habita, nas surdas palavras doutrem.

Miguel Viegas Leal

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Sombreado dos Vendavais

Aquela que ali ao fundo se abana, ela e o pasto, é uma cabana
Abrigada pelo troante sombreado dos vendavais, que zumbem
Entre a palhoça e a solidão, um carvalho velho abraça uma cigana
E cantam os três a cançoneta do travões que retumbem.

A árvore racha-se e a madeira arde
A cigana dá um pulo, cai prá frente e aterra no encharcado pastadoiro
Salta-lhe um sapo que lhe beija a seca madre
E depois uma vara que lhe limpa logo o coiro.

Somente a cabana é cantante, vê-se lhe o prazer
De bailar ao compasso da intempérie
Para aqui e para ali vão-se as minhas tábuas, estropiadas de ranger
Aproxima-se um castelhano, joga a cabeça às mãos, Que barbárie!

Miguel Viegas Leal

Ofusco

Muito emareado anda este mar da minha terra
Ora se ergue como montanhas ou se abate como vales
Vem contra mim e a tua água me soterra
Desmembra-me e só assim mostrarás o quanto vales.

Mas o que é isto senhores? Que um nevoeiro se desgrenha
Vem do céu e se afunda nas águas de além-mares
Serão esses ares doutros lados que meu mar prenha
Ou amores corrompidos por mal-estares?

Ergue-se-me outro véu de brusquidão transparente
E as nuvens de além estão vindo para aquém, já as reencontro
Um bote de pescadores, boiando na agitação, passa-me rente
E dize um para os outros gritando, Não se vê hoje o monstro!

Miguel Viegas Leal